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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Irreverência e glamour na segunda de carnaval




por Priscila Rodrigues



Para quem quer fugir da agitação dos trios elétricos, a melhor opção do carnaval de Salvador é o Concurso Nacional de Fantasia Gay. Acontece toda segunda – feira durante o carnaval e se resume em luxo, diversão e muita irreverência. A noite fica garantida por um espetáculo de encher os olhos. Mas, não é só para adultos! Pessoas de todas as idades e principalmente as crianças conferem a festa que o Grupo Gay da Bahia organiza com maestria, mesmo muito tempo antes de o carnaval acontecer.
Praça lotada. Crianças, adultos de todas as idades, adolescentes, idosos, homens, mulheres, sejam eles heterossexuais, homossexuais ou transexuais. Estavam todos lá! A espera do Concurso de Fantasia. Mas este, não é um concurso comum, em sua maioria os participantes são gays. Quem organiza é o Grupo Gay da Bahia que desde setembro começa os preparativos da festa.
Alem do concurso, seus apresentadores, e um em especial, Luis Mott, antropólogo e fundador a 30 anos do GGB, fala ao microfone a todo o momento a respeito da importância da luta da causa gay. Com seu grito de guerra “A Bahia é GAY!!!!!!!” muitas vezes arranca risos e olhares de indignação, mas mesmo assim se mostra forte em frente ao preconceito das pessoas.
O brilho e o glamour começam cedo. Pela manha da segunda-feira de carnaval os participantes já começam a se organizar. Roupa, maquiagem, sapato e muito brilho já começam com a transformação daqueles que farão parte da festa. A correria e o suor na preparação de som, palco, luzes, enfim, todo o espaço da festa também começa muito cedo.
Um dos coordenadores do Grupo Gay da Bahia, Otávio Reis é um daqueles que não se cansam de se cansar com os preparativos. Todos os anos ele organiza a ordem de participação dos concorrentes, entre muitas outras tarefas, mas, simplesmente adora. “Quando a gente faz isso é porque quer oferecer isso para o público. Porque é uma coisa bonita, é uma coisa diferente no carnaval.” confessou Otávio cheio de entusiasmo.
Lá pelas cinco horas da tarde os participantes estão nos últimos retoques da roupa e da maquiagem. Lá fora, as crianças tomam conta do palco e dançam a espera do show. Não é nada parecido com a imagem que muitos poderiam ter em sua cabeça. Não há suspense nos rostos daqueles pais e eles estão ali porque querem mesmo assistir com suas crianças a apresentação de Gays. Aliás, se Luis Mott não lembrasse a todo o momento que aquele evento promove a igualdade, isso já teria sido feito por aqueles que ali estavam.
Ao chegar o momento da festa, jurados dos mais diferentes tipos de gente que apóiam e que participam diretamente pela luta por direitos iguais surgiram para completar a festa. Eles julgam os candidatos pela originalidade de suas fantasias. Para os seis vencedores são distribuídos prêmios que no total somam um montante de R$ 13.500,00. O dinheiro do prêmio vem da Prefeitura e da Saltur que também são os únicos patrocinadores do evento.
Conseguir verbas é uma dificuldade que eles enfrentam para a realização do evento. Não existe apoio de empresas particulares. Acho que a barreira do preconceito precisa ser rompida por grupos empresariais para que eles reconheçam também essas manifestações culturais, como já tem sido feito na Parada Gay de São Paulo. A maior parada gay do mundo conta com o apoio de empresas grandes, como no último ano em 2008, que a Petrobrás e a Caixa Econômica Federal eram os principais patrocinadores do evento.
Pronto! Começou a festa! Com a apresentação dos jurados começaram os shows. A platéia interagia com muita descontração e energia, os convidados se apresentavam como se o palco montado na Praça Municipal fosse uma grande boate. A cultura gay já faz parte do Carnaval baiano, essa foi a décima segunda edição do evento.
Fantasias lindas e muito glamorosas. Brilho e festa contagiaram todos os participantes. Até aquelas fantasias que protestavam e chocavam pela verdade, como a de um rapaz que se pintou de vermelho, simulando sangue e segurando uma faixa com os dizeres: “Diga não a homofobia” eram lindas. Lindas pela intenção e emoção que representavam.
O Concurso é um ótimo programa para a segunda – feira de carnaval. É para aqueles livres de preconceito e leves de espírito. Quem não tem vergonha nem desprezo daquilo que é diferente. Afinal no carnaval vale tudo. Principalmente ser muito feliz!
Fotos do Concurso:



Negra trançada sabe quem é





por Priscila Rodrigues


O cabelo trançado das negras baianas é, sem dúvida, um elemento que construiu a identidade e a figura de resistência da negritude na Bahia. As negras baianas estão envolvidas em um contexto que as fazem se auto-identificar e pertencer a um grupo racial. Negras baianas. Outrora, somente envolvidas em questões ligadas ao culto do corpo e da sensualidade como forma de expressão, os cabelos se tornaram importantes para “a formação de identidades de afirmação positiva das diferenças raciais e a feminilidade” (Taniamara Elias Santos, 2008, pg. 3).
O cabelo trançado é diferente daquele cabelo que víamos ser massivamente difundido pela mídia até pouco tempo atrás de que cabelo bonito é cabelo liso. Chapinha, alisamento japonês, escova, escovas de chocolate, relaxamento, amaciamento, estão entre os inúmeros tratamentos aos quais muitas negras de cabelo crespo se submetem. Mas, existem também aquelas que andam na contramão de toda essa parafernália inventada pela indústria da moda e trançam os cabelos na procura por valores que ultrapassem esse domínio cultural do belo e bom.
Essas mulheres que antes eram esquecidas por tudo que lembrava moda e beleza começaram a lembrar-se que eram bonitas também com a explosão de intensas movimentações que valorizavam a negritude. Comportamento e cuidados com o corpo que definem um estilo negro de ser em roupas, cabelo e atitude eram importados e imitados pelos jovens em Salvador. “Uma imagem de contraste revela um discurso político, a partir dos anos 1970, relacionado aos reflexos do "black is beautiful", movimento cultural e comportamental norte-americano dos anos 1960.” (Jocélio Teles dos Santos, 1999, pg. 7) Essa influência ficou bastante clara com o surgimento do cabelo black-power, que sacudiu a “consciência racial” das jovens negras que passaram também a procurar as tranças e penteados afros em contrapartida aos alisamentos da vida.
“A imagem do cabelo natural passou a ser reverenciada como aquela que se contrapõe ao cabelo liso e que estaria em consonância com uma nova mentalidade do "ser negro".” (Jocélio Teles dos Santos, 1999, pg. 7). Ser negra hoje na Bahia é muito mais do que pertencer a um grupo de pessoas de determinada cor de pele. Ser negra baiana é também estar ligada a todo o turbilhão cultural pelo qual essa gente está destinada desde que pode se compreender e se orgulhar da carga genético-cultural que está no tom da pele. “A identidade negra é entendida, aqui, como uma construção social, histórica, cultural e plural. Implica a construção do olhar de um grupo étnico/racial ou de sujeitos que pertencem a um mesmo grupo étnico/raciais sobre si mesmos, a partir da relação com o outro.” (Nilma Lino Gomes, 2003, pg 5)
Para se tornar doutora em Antropologia Social pela USP, Nilma Lino Gomes, desenvolveu uma pesquisa etnográfica em salões étnicos de Belo Horizonte relacionando negro, corpo e estética. A pesquisa dela revelou que no processo de construção de identidade, o cabelo crespo era um forte ícone identitário que faria o corpo ser considerado como um suporte da identidade negra. “O papel desempenhado pela dupla: cabelo e cor da pele na construção da identidade negra foi o ponto de maior destaque durante a realização da pesquisa. A importância desses, sobretudo do cabelo, na maneira como o negro se vê e é visto pelo outro, até mesmo para aquele que consegue algum tipo de ascensão social, está presente nos diversos espaços e relações nos quais os negros se socializam e se educam: a família, as amizades, as relações afetivo-sexuais, o trabalho e a escola. Para esse sujeito, o cabelo carrega uma forte marca identitária e, em algumas situações, é visto como marca de inferioridade” (Gomes, 2002).
Mulheres que usam tranças têm a sua ancestralidade negra fortalecida e externada. Elas não sentem vergonha do que são e sabem valorizar suas raízes. São femininas, fortes e belas. A estética que os cabelos trançados proporcionam perpassa a construção da auto-estima da negra e chegam à politização dessas mulheres. Símbolos da luta por referências e identificação com sua própria história.
Foto: Google

Rotina de morte





Por Priscila Rodrigues


Todos os dias eles se deparam com muitos caixões e a morte faz parte de sua rotina. Coroas de flores enfeitam seu ambiente de trabalho. Eles estão acostumados ao silêncio que toma conta do lugar durante a maior parte do tempo. É preciso muita paciência e tranqüilidade para realizar seu serviço. Eles lidam com um momento muito delicado da vida das pessoas. Ou seria da morte? A morte pode parecer distante para muitos. Para eles é uma rotina. Uma rotina equilibrada no silêncio do trabalho que acontece quase de maneira automática. Cuidar do último adeus que as famílias darão aos seus entes queridos é uma tarefa que exige responsabilidade. Vendedores de caixão! Como será trabalhar em uma funerária?
“Um serviço muito triste” definiu Edinei Silva, 23 anos, que a 6 trabalha na funerária Cruz da Redenção. Ele não gosta do que faz, mas, tem muito respeito. Seu trabalho anterior era em um mercadinho só que a falta de emprego não deixou escolhas. Ele jura que nunca presenciou nada que possa ser considerado fora do normal, mas confessa que levou um ano para se acostumar com o ambiente fúnebre.
Ao ser indagado se haviam estórias interessantes pra contar, ele lembrou de um rapaz do Instituto Médico Legal que foi retirar o corpo da gaveta. “Ele foi retado xingando”, já se aproximava da hora de ir embora. “Quando ele abriu a geladeira o cadáver deu um soco nele”, contou Edinei entusiasmado. Jura que o medo não chegou perto dele nem no momento em que deu prosseguimento aos cuidados com o corpo.
Muita gente acha que quem trabalha em funerária tem um monte de casos assustadores pra contar. Isso se deve à fantasia e ao medo que as pessoas sentem de trabalhos que lidam diretamente com os mortos. Para Jessé Brito, 20 anos, que trabalha a um ano na funerária A Decorativa, mas desde os 15 está no ramo, esse é um emprego normal como qualquer outro. As pessoas que o conhecem ao ficarem sabendo que ele é vendedor de caixões se sentem intimidadas, mas isso não o aborrece. Pelo contrário, ele acha graça. “É o meu ganho de vida, trabalho como qualquer outro, sem grilo.”.
O gerente da funerária A Decorativa prefere ser chamado de Cerqueira, tem 78 anos e 40 deles trabalhou em funerárias. Uma figura interessante que com certeza já viu muita coisa quando o assunto é morte. Na época em que começou a trabalhar ele implantou o Cemitério Parque no Rio de Janeiro e foi apelidado de “o homem que vende a morte” pela Rádio Tupi a trinta anos atrás. “Eles consideravam que seria uma coisa extraordinária e então anunciaram uma entrevista minha como uma coisa bombástica”, contou Cerqueira. Para ele, hoje o trabalho que realiza na funerária é considerado normal pelas pessoas. “Há uns tempos atrás era muito diferente” completou.
Silas Lima , 19 anos, trabalha a 2 meses na funerária Exclusiva e acha tranqüilo o serviço. “No meu primeiro dia de trabalho eu tava com medo por causa das coisas que as pessoas falavam, mas depois eu vi que não era nada disso”.
Ivã Santos, 38 anos, trabalha a 22 anos no ramo de funerária e já passou por 6 funerárias diferentes, agora trabalha com o jovem Silas. Não tem medo hoje em dia, mas afirmou ter passado muito tempo para se acostumar com o ambiente frio e mórbido, “No meu primeiro dia de trabalho eu pensava que os caixões estavam se bulindo” contou dando uma gargalhada daquelas quebrando um pouco a seriedade do lugar. O que mais chocou ele em todos esses anos de trabalho foi uma morte causada por um acidente de moto “um acidente muito feio, me chocou” confessou. “Eu tenho medo dos vivos” disse lembrando do mundo violento em que vivemos hoje.
“A gente dá mais valor a vida trabalhando aqui” disse Edinei. Não é tão difícil imaginar o motivo disso. Dizem que a morte é a única certeza que temos nessa vida e para quem todos os dias vê isso como rotina “essa é uma certeza autenticada em cartório” brincou Cerqueira.
“Alguém tem que fazer o serviço” disse Silas. Esse é um fator que todos concordam. Ninguém se lembra com freqüência desses trabalhadores, mas eles sabem que precisam ser discretos e compreensivos porque aparecem em um momento delicado. “Ninguém quer comprar um caixão, mas não é uma questão de escolha” completou Cerqueira. Resta-nos rezar pra não precisar desses serviços tão cedo.

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