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quarta-feira, 27 de maio de 2009

“A casa da música é como se fosse também a minha casa”


por Jéssica Brandão
Filha de pescador, nascida no bairro de Itapuã, casada e mãe de dois filhos, Jussara Miranda Pereira de Souza, 35 anos, é funcionária da Casa da Música de Itapuã há quase 15 anos. Na entrevista, Jussara conversou sentada na ventilada varanda da Casa da Música, ao redor da vegetação do Parque do Abaeté, como se ali fosse realmente a sua Casa. “Eu vim realmente me descobrir aqui”, explica, ao contar que foi trabalhar no local aos 22 anos de idade e que iniciou a sua carreira profissional como técnica de pesquisa do museu.

Jéssica Brandão: Como você veio trabalhar aqui?
Jussara Miranda: Foi indicação. Eu morava aqui em Itapuã, na rua da Moreira. E tinha uma senhora, chamada dona Marina, que fez a indicação.

J. B: Ao longo destes quinze anos, quais as mudanças que aconteceram aqui nas proximidades de Itapuã com as reformas para a implementação da Casa?
J. M: A gente vinha pra cá e tinha uma visão totalmente diferente, não é que hoje não esteja bonito, legal. A mudança valorizou mais o espaço, que por sua vez, perdeu o lado natural. Para se ter uma idéia, quando a gente vinha aqui, tinha realmente aquelas dunas, a vegetação, as barraquinhas de coco que eram cobertas de palha, aqueles banquinhos de madeira, a beleza natural. Pra mim era bem interessante, eu comecei realmente a frequentar o Abaeté depois da inauguração, quando eu comecei a trabalhar aqui.

J. B: Como foram os primeiros meses, após a inauguração?
J. M: Pra começar, a visitação era de mil pessoas por dia. Tinham-se filas aqui fora para poder entrar. Entravam de 25 em 25. Era muita, muita gente. A gente ficava o dia todo em pé. Entrava visitante o tempo todo. As pessoas da comunidade tinham aquela coisa da novidade e de querer conhecer. Depois de um tempo, as pessoas foram se acostumando e as visitas foram baixando. E aí começaram a vim os turistas no período de férias, durante a alta estação.

J.B: Qual foi o momento, o evento ou a exposição que lhe marcou?
J. M: Um documentário sobre a história da música baiana, que conta desde Gregório de Matos e que termina com o clipe de Caetano e Gil. É um documentário breve, bem interessante e que foi algo que me marcou muito.

J.B: O que você acha dos Saraus?
J. M: Quando começou os Saraus eu já me senti. Eu passei um período que eu já estava desgastada, eu não queria mais trabalhar aqui. Foi quando houve a mudança da coordenadora para o coordenador. Com essa mudança, a transição com uma pessoa que é daqui da comunidade, e que conhece muita gente, surgiu um novo atrativo para a casa, os saraus.

J. B: Qual o seu sentimento em relação a Casa da Música?
J. M: Eu costumo dizer que a casa da música é um lugar onde eu venho e que me proporciona um momento de relaxamento. Eu gosto de trabalhar com alegria, gosto de trabalhar sorrindo, são momentos que a gente esta conversando e vê outra pessoa sorrindo que a gente se diverte. O vínculo de amizade é importante, Amadeu é o coordenador, mas para mim ele é o coordenador e a pessoa Amadeu. Se isso é possível para que a gente possa de vez em quando se distrair, pra mim é ótimo. Não é só aquela coisa dele ser o “chefe”. Tem aquele momento de descontração, momento de amizade. Tanto da menina da limpeza, quanto com o coordenador. Existe o laço forte de amizade, que para mim é gratificante.

Ninevah Barreiros: “Todo mundo levou um susto”





por Lívia Machado


Ela tem 22 anos. É baiana, estudante de psicologia e reside no bairro Jardim de Alah, em Salvador (BA). As características de Ninevah Barreiros fazem dela uma pessoa comum, mas o fato de ela ter se convertido ao islamismo, em outubro de 2008, traz à sua vida um diferencial em relação aos demais, afinal, a religião muçulmana é ainda pouco difundida na Bahia.
Nesta entrevista, a jovem muçulmana explica os motivos que a fizeram se interessar pela religião mais professada no Oriente Médio. Ela comenta a respeito da curiosidade que as pessoas demonstram devido a sua opção religiosa, relata as diferenças referentes ao padrão de vida antigo em relação ao atual, voltado para a crença nos ensinamentos do profeta Mohamed, registrados no Alcorão.

LIVIA MACHADO - O que te levou a ser muçulmana?
NINEVAH BARREIROS- O islã em si. É uma religião completa, nela se encontra resposta pra todos os assuntos da vida, os conceitos e as explicações são tudo muito claro e lógico não existe contradição no que o islã diz, nem na relação do islã com a vida diária. E toda a organização e disciplina que existe na religião, a verdade nos ensinos... Não foi uma coisa só, mas todo o aprendizado da religião e sua aplicação me fizeram ter certeza de que não podia ser outra coisa se não muçulmana.

L.M- Como você enfrenta o preconceito?
N.B- O preconceito não é tanto, as pessoas demonstram mais curiosidade do que atitudes ofensivas. Às vezes me incomoda que as pessoas fiquem me olhando quando saio, mesmo que seja só por curiosidade. Mas tem dias que é muito incômodo ter certeza de que todo mundo está olhando pra mim.

L.M- Quais foram às reações de sua família e seus amigos depois de se converter?
N.B-A princípio todo mundo levou um susto e achou absurdo. Agora eles já estão se acostumaram a minha mãe é quem me dá mais apoio, e até me ajuda a comprar roupas adequadas e véus. Um dos meus irmãos também acha legal, às vezes vai comigo no centro islâmico. O resto da família ainda é contra, meu pai não gosta que eu use véu na forma tradicional e mais conhecida como islâmica, então quando saímos tenho que usar de um jeito que pareça ser apenas um lenço. E minha avó tem uma idéia bem errada do islã, igualzinha a todas as pessoas que acham que muçulmanos são terroristas. Isso é horrível porque ela liga pra minha casa dizendo que está rezando para eu sair da religião ela acha que me converti pra chamar atenção (Risos). Já meus amigos acharam meio estranho no começo, mas nunca foram preconceituosos.

L.M- Quais foram às grandes mudanças de sua vida depois que você se converteu?
N.B- Parei de fazer muita coisa. Não fico mais bebendo as bebidas alcoólicas estou mais paciente, menos estressada. Agora sou mais feliz comigo e com minha vida. Aprendi a me valorizar mais, a me respeitar mais, como pessoa e como mulher também. E incrivelmente me tornei uma pessoa muito lógica e coerente em meus discursos, em meus questionamentos, em minhas atitudes. É como ser mais sincera comigo mesma e com todas as outras pessoas.

L.M - Por que ser mulçumana?
N.B - Li um pouco sobre algumas crenças, não todas, mas nenhuma me fez pensar que ela era a certa e a mais completa tanto quanto o islã. Fora que essas doutrinas criadas pela cabeça do homem nunca fez sentido pra mim. Eu gostava um pouco do espiritismo, mas depois de conhecer o islã e buscar a lógica das coisas, comecei a achar que faltava alguma coisa no espiritismo.

L.M – Quando foi que você se converteu?
N.B- Oficialmente, desde 28 de dezembro de 2007, mas já estava decidida desde novembro e comecei a rezar como diz o islã desde outubro do mesmo ano.

L.M- Teve algum momento em que você sofreu algum tipo de preconceito?
N.B- Teve certa vez que uma mulher me perguntou se eu era muçulmana, e o porquê que eu era muçulmana e ela não se conformou quando eu disse que era por minha escolha. Então ela me disse com muito desdém ‘ mas a gente vê cada coisa nesse mundo’... Saí de perto pra não responder.

L.M- O fato de ser muçulmana te impõe alguma dificuldade?
N.B- É, só as já mencionadas mesmo, um pouco de calor, difícil achar roupas... Mas às vezes é bem difícil para eu lidar com a crença das outras pessoas, quando soam sem lógica. Bem, como muçulmana a verdade pra mim é o islã, outras religiões pra mim não são sinônimo de verdade à respeito de Deus. Às vezes ouço absurdos ilógicos e as pessoas só reproduzem o que ouvem à respeito de Deus, não questionam a validade dos argumentos... Isso me deixa nervosa.

L.M - Você pode deixar uma mensagem em árabe (com a tradução) para o nosso leitor?
N.B- LA ILAHA ILA ALLAH! – Não existe divindade que não seja ALLAH! É a coisa mais importante no islã, a unicidade de Deus.

“Ter que lutar mais do que mulheres brancas”









por Aricelma Araújo








É assim que a dona de uma história de vida inigualável e de muita batalha Márcia Guena dos Santos, fala das dificuldades enfrentadas em ser mulher negra. Professora, graduada em Comunicação pela Universidade de São Paulo, e mestrado em Programa de Pós Graduação em Integração da América pela USP, é sem dúvida um exemplo de luta e determinação para muitas pessoas que sonham em vencer sua carreira profissional. Atualmente sendo estudante de doutorado da Universidad Complutense de Madrid, divide sua vida entre estudos e família. Nessa entrevista, Guena, que passou anos de sua vida lutando contra o preconceito racial e defendendo causas negras, conta como foi sua trajetória ao longo dos anos, as dificuldades enfrentadas, relembra sua viagem à África e ainda revela um pouco sobre sua experiência em ser mãe.


Repórter - Como  surgiu a idéia de estudar  química e jornalismo?   
Márcia Guena - Sempre gostei de estudar. Minha formação foi técnica, na área de Química, mas as letras sempre fizeram parte da minha vida.

R - Você atua apenas no jornalismo?
MG - Jornalismo,  história e movimentos sociais

R - Como mãe, e com tantas responsabilidades, como você concilia sua vida profissional com a pessoal? 
MG - Reservando horários para cada coisa

R – O que acha da experiência em ter se tornado mãe?
MG - Uma experiência inigualável, de muito amor e doação.

R - O que costuma fazer fora da faculdade?
MG - Ler, cuidar de meu filho, participar de ações ligadas à cultura negra, sempre realizar uma atividade de lazer.

R - E sua vida profissional? Como foi ao longo destes anos?
MG - Muito agitada. Trabalhei em  jornal impresso, revista, fiz mestrado e estou fazendo doutorado.

R - Como é essa mistura de história, quimica, jornalismo e fotografia?
MG - Como a vida onde todas as coisas estão misturadas. Mas a concentração do meu trabalho está na área das letras e a discussão de temas negros.

R - Qual sua opinião em relação a Lei Maria da Penha?
MG - Uma lei extremamente necessária

R - Quanto à raça, já sofreu algum tipo de preconceito ou discriminação?
MG- Várias vezes.

R - De que forma você ver o preconceito hoje no país?
MG - Uma conseqüência do processo de formação histórica do país que demanda uma luta contínua de todos, mais particularmente da população negra por meio de suas organizações.

R - O que acha  que poderia ser feito para acabar com o preconceito/ e a discriminação racial no Brasil?
MG - Não acaba de um dia para o outro. O movimento negro deve continuar atuando, propondo leis, cotas raciais etc.

R - Quais as dificuldades que você enfrentou na vida, por ser uma mulher negra?
MG - Ter que lutar mais do que mulheres brancas.

R - Na sua vida profissional, por ser negra, algo já te ameaçou?
MG - O medo de não ter força para enfrentar o preconceito cotidiano.

R - Como é ser uma mulher negra em destaque hoje na sociedade?
MG - Não me acho uma mulher de destaque. Mas, caso você considere assim, é importante registrar que um negro só é respeitado nos espaços onde é conhecido, fora dali enfrenta os mesmos problemas que qualquer outro negro: preconceito de discriminação.

R - Como você ver a formação da identidade feminina nos diversos seguimentos da sociedade? 
MG - Fundamental

R - Como foi sua visita à África?Qual o objetivo da viagem? O que mais te chamou atenção?
MG - O objetivo foi conhecer a terra da minha família. Foi um encontro maravilhoso com meus ancestrais. O que mais me chamou a atenção foi a semelhança do povo conosco.

R - Como você compara o povo africano do povo negro brasileiro?
MG - Os brasileiros negros têm a sua origem na África. Apesar de viveram momentos, culturas e espaços distintos, muito permaneceu no gesto e na cultura como um todo.

R - Qual seu ponto de vista em relação à democracia racial no Brasil?
MG - Não existe democracia racial. Esse foi um discurso criado pelas elites. Existem racismo e preconceito que devem ser enfrentados com seriedade e muito trabalho.

R- Como jornalista, qual sua visão em relação a atuação da imprensa hoje na sociedade? 
MG - Em geral uma atuação pouco ética, mas há exceções.

R - Em sua opinião, quais  as expectativas futuras que você acha que possibilitarão o negro conquistar novos espaços na sociedade?
MG - Uma luta contínua dos movimentos negros, responsáveis por todas as conquistas existentes

História Ganha uma Nova Roupagem




por Claudiana Silva


Este ano entrou em vigor a lei n°10.639, que obriga todas as escolas públicas e particulares a inserir a História da Cultura Africana no currículo escolar. Conversamos com a educadora Cleane Chagas de Jesus, professora de língua portuguesa e língua inglesa e que está se especializando em Metodologia e Didática da História e da Cultura afro-brasileira. Ela confessa ter sentido um grande alívio, pois durante muito tempo fomos obrigados a acreditar que o Brasil era uma nação racialmente democrática.

Pergunta - Qual sua posição na obrigatoriedade da inserção da disciplina HCA na grade escolar?
Cleane - A obrigatoriedade do ensino da História da Cultura Afro-brasileiro nos currículos das escolas públicas e particulares, conforme a lei n 10.639/2003 gerou muita polêmica, mas confesso ter sentido um grande alívio,pois durante muito tempo fomos obrigados a aceitar o mito da democracia racial. Todos nós sabemos que essa igualdade entre negros e brancos no Brasil não existe. A partir do momento que vivemos em um país formado por uma miscigenação, não temos o direito de negativar a cultura africana.

P – Qual a importância do ensino da cultura afro-brasileira nas escolas?
C - “A história narrada nas escolas é branca a inteligência e a beleza mostrada pela mídia também o são”, afirma Hélio Santo.
Os estudiosos descobriram o que a população brasileira sempre soube, ou seja, no Brasil, negros e brancos nunca estiveram em igualdades de condições. O autoritarismo dos não-negros foi de tal forma que calou gerações e gerações, através da exclusão, e se a lei não fosse aprovada, essa medida reparatória não iria acontecer. O Brasil é a segunda nação com a maior parte da população negra e ao mesmo tempo é contraditório quando os estudantes desse mesmo país não sabem falar sobre a sua cultura. Logo, não há nada mais democrático do que ensinar ao negro sua própria cultura. Espero que esse seja o primeiro passo para começarmos a desconstruir os estereótipos e preconceitos construídos ao longo do tempo.

P - Qual é o papel do educador?
C - O professor tem o papel de perguntar, desafiar, elaborar situações as quais estimulem as habilidades e competências do aluno, levando-o a interagir com o seu meio sócio-cultural. O profissional da educação tem como objetivo viabilizar o conhecimento, pois o mesmo não é detentor do saber.

P – Fale um pouco sobre a reação dos alunos após entrarem em contato com tanta coisa nova.
C - No início houve o estranhamento, pois foram 500 anos ouvindo palavras negativas sobre a população negra e não será em apenas quatro anos que iremos desmistificar todos esses estereótipos, mas é satisfatório perceber como a auto-estima do negro vem melhorando a cada dia. Nós não podemos cobrar essa mudança de imediato porque vivemos em um país bastante preconceituoso, e o mesmo está tentando tomar medidas emergenciais e reparadoras para tentar amenizar um terço do tempo de maus tratos, angústias e exclusão que a população negra sofreu. Contudo, nós, profissionais da área da educação, somos formadores de opiniões, por isso podemos afirmar quer essa história ainda pode ter uma nova roupagem.

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