quarta-feira, 27 de maio de 2009

Rotina de morte





Por Priscila Rodrigues


Todos os dias eles se deparam com muitos caixões e a morte faz parte de sua rotina. Coroas de flores enfeitam seu ambiente de trabalho. Eles estão acostumados ao silêncio que toma conta do lugar durante a maior parte do tempo. É preciso muita paciência e tranqüilidade para realizar seu serviço. Eles lidam com um momento muito delicado da vida das pessoas. Ou seria da morte? A morte pode parecer distante para muitos. Para eles é uma rotina. Uma rotina equilibrada no silêncio do trabalho que acontece quase de maneira automática. Cuidar do último adeus que as famílias darão aos seus entes queridos é uma tarefa que exige responsabilidade. Vendedores de caixão! Como será trabalhar em uma funerária?
“Um serviço muito triste” definiu Edinei Silva, 23 anos, que a 6 trabalha na funerária Cruz da Redenção. Ele não gosta do que faz, mas, tem muito respeito. Seu trabalho anterior era em um mercadinho só que a falta de emprego não deixou escolhas. Ele jura que nunca presenciou nada que possa ser considerado fora do normal, mas confessa que levou um ano para se acostumar com o ambiente fúnebre.
Ao ser indagado se haviam estórias interessantes pra contar, ele lembrou de um rapaz do Instituto Médico Legal que foi retirar o corpo da gaveta. “Ele foi retado xingando”, já se aproximava da hora de ir embora. “Quando ele abriu a geladeira o cadáver deu um soco nele”, contou Edinei entusiasmado. Jura que o medo não chegou perto dele nem no momento em que deu prosseguimento aos cuidados com o corpo.
Muita gente acha que quem trabalha em funerária tem um monte de casos assustadores pra contar. Isso se deve à fantasia e ao medo que as pessoas sentem de trabalhos que lidam diretamente com os mortos. Para Jessé Brito, 20 anos, que trabalha a um ano na funerária A Decorativa, mas desde os 15 está no ramo, esse é um emprego normal como qualquer outro. As pessoas que o conhecem ao ficarem sabendo que ele é vendedor de caixões se sentem intimidadas, mas isso não o aborrece. Pelo contrário, ele acha graça. “É o meu ganho de vida, trabalho como qualquer outro, sem grilo.”.
O gerente da funerária A Decorativa prefere ser chamado de Cerqueira, tem 78 anos e 40 deles trabalhou em funerárias. Uma figura interessante que com certeza já viu muita coisa quando o assunto é morte. Na época em que começou a trabalhar ele implantou o Cemitério Parque no Rio de Janeiro e foi apelidado de “o homem que vende a morte” pela Rádio Tupi a trinta anos atrás. “Eles consideravam que seria uma coisa extraordinária e então anunciaram uma entrevista minha como uma coisa bombástica”, contou Cerqueira. Para ele, hoje o trabalho que realiza na funerária é considerado normal pelas pessoas. “Há uns tempos atrás era muito diferente” completou.
Silas Lima , 19 anos, trabalha a 2 meses na funerária Exclusiva e acha tranqüilo o serviço. “No meu primeiro dia de trabalho eu tava com medo por causa das coisas que as pessoas falavam, mas depois eu vi que não era nada disso”.
Ivã Santos, 38 anos, trabalha a 22 anos no ramo de funerária e já passou por 6 funerárias diferentes, agora trabalha com o jovem Silas. Não tem medo hoje em dia, mas afirmou ter passado muito tempo para se acostumar com o ambiente frio e mórbido, “No meu primeiro dia de trabalho eu pensava que os caixões estavam se bulindo” contou dando uma gargalhada daquelas quebrando um pouco a seriedade do lugar. O que mais chocou ele em todos esses anos de trabalho foi uma morte causada por um acidente de moto “um acidente muito feio, me chocou” confessou. “Eu tenho medo dos vivos” disse lembrando do mundo violento em que vivemos hoje.
“A gente dá mais valor a vida trabalhando aqui” disse Edinei. Não é tão difícil imaginar o motivo disso. Dizem que a morte é a única certeza que temos nessa vida e para quem todos os dias vê isso como rotina “essa é uma certeza autenticada em cartório” brincou Cerqueira.
“Alguém tem que fazer o serviço” disse Silas. Esse é um fator que todos concordam. Ninguém se lembra com freqüência desses trabalhadores, mas eles sabem que precisam ser discretos e compreensivos porque aparecem em um momento delicado. “Ninguém quer comprar um caixão, mas não é uma questão de escolha” completou Cerqueira. Resta-nos rezar pra não precisar desses serviços tão cedo.

Seja o primeiro a comentar

Gaveta de Briefing © 2008. Template by Dicas Blogger.

TOPO