quarta-feira, 27 de maio de 2009

Cole na Corda





por Aricelma Araújo



Sem dúvida, a palavra cordeiro muitas pessoas já ouviram falar e para cada uma delas este termo tem um significado diferente. Mas aqui iremos esquecer os outros significados que o dicionário oferece e tratar apenas de um “cordeiro” , que muita gente com certeza já viu ou se não viu, ouviu falar daquele estica-estica de um lado para outro pelas ruas dos circuitos da folia.
A medida que os anos vão passando, a corda é um dos elementos que está se tornando a grande responsável pela definição do espaço de cada folião na avenida, nas ruas dos principais circuitos. Há muitos anos, desde a década de 80 que foi crescendo o números de trios e blocos no carnaval de Salvador, que lá estão eles. Os cordeiros, pessoas, a maioria delas pretos, pobres e desempregadas, que com idade entre 18 e 24 anos arriscam suas vidas no meio da multidão, segurando as cordas que separam o folião pipoca, que brinca nas ruas e nas calçadas, dos foliões que gastam seu dinheiro com a compra de abadas dos mais irreverentes blocos.
De acordo com dados divulgados pela Assessoria de Comunicação Social de Salvador, no Portal Oficial do Carnaval, eles representaram aproximadamente 30% da mão-de-obra nos dias de Carnaval. Tentando ganhar um dinheirinho, durante os seis dias de festa, eles inconscientemente contribuem para que os foliões da pipoca, sejam espremidos e jogados para a calçada. Mas o que fazer, se no Brasil a falta de emprego é uma realidade cada vez mais presente na vida das pessoas? Só resta trabalhar, com o que encontrar pela frente.
Ser cordeiro e ter que ser segurança dos “filhinhos de papai” não é uma situação nada boa. A condição trabalhista destes profissionais, é perceptível a qualquer desvio de olhar que fizermos, quando eles passam protegendo a corda.. É só olharmos nos rostos deles que veremos as expressões faciais falando pelo cansaço, fome, sede, calos nos dedos e nos pés, por tantas e tantas horas ali no estica estica. Caminhando quilômetros e mais quilômetros são normalmente 6 à 8 horas diárias, mas que pode chegar algumas vezes até 10.
Brincar!!! Isso não ficou para eles. Alguns até tentam, mas com o cansaço do empurra-empurra desistem. Dormir? Não. Alguns estendem seus corpos pelas calçadas e ali amanhecem para caminhar até suas casas.
Muitos estão ali, à mercês de sofrer abusos das autoridades, humilhação, discriminação, desrespeito , e até correr o risco de consumir alimentos estragados fornecidos pelos blocos que os contratam, na dureza estão ali, que faça sol ou que faça chuva.
Pois é... Ser cordeiro é uma realidade nua e crua, que não tem como ficar escondida o ano inteiro. Para Percival Bispo, presidente do Sindicato dos Cordeiros da Bahia, cerca de 80 mil cordeiros estiveram nas ruas fazendo a segurança dos blocos em troca em de uma diária mínima de R$ 23,00, estabelecido pelo Ministério do Trabalho. Para a Seção de inspensão do Trabalho (SEINT), essa precisão do Sindicorda é muito grande, mas não deixa de estimar que pelo menos 50 mil ofereceram sua mão-de-obra na festa.
Alguém por eles? Existe sim. Pessoas que conhecem de perto a realidade, e fundaram o Sindicorda, que a cada dia, vem lutando por melhorias e cobrando dos órgãos competentes soluções para tanta exploração e mais direitos para estes trabalhadores.
Só depois muitos anos de sofrimento e exploração, que este grupo conseguiu chamar a atenção dos órgãos públicos e no inicio do ano de 2007, o Ministério Público do Trabalho implementou um tal de TAC ( Termo de Ajustamento de Conduta), que regulariza em parte a situação do cordeiro. Em parte, porque apenas lhes oferece recursos para segurarem bem a corda e cobra dos contratantes o que está estabelecido no termo.
Pelo regimento que está no TAC, os cordeiros além da diária, teriam direito à lanche que resume em(refrigerante ou suco, dois pacotes de biscoito e três garrafas de água) vale-transporte, protetor auricular, luvas, camisetas de identificação, protetor solar e seguro coletivo contra acidentes pessoais, bem como recolhimento de contribuições previdenciárias.
Mas nem sempre é isso que acontece, porque tem sempre uma empresa contratante, um bloco explorador, que não cumpre com o que assinou e não respeita os auditoes que estão nas ruas fiscalizando. O exemplo disso foi mostrado em uma matéria publicada pelo repórter Tiago Décimo, no jornal O Estado de S.Paulo em 24.02.09. A matéria com o título “Juizado flagra menores de 16 anos como cordeiros em Salvador”, mostra
algumas de muitas autuações que aconteceram neste carnaval, mas que foi mostrada apenas do bloco Gula, que possuia nove cordeiros com menores de 16 anos trabalhando. Em entrevista, de acordo com o auditor fiscal Weldo Soares Matos, chefe da Seção de inspensão do Trabalho (SEINT), por cada cláusula descumprida do TAC, os blocos terão que arcar com R$10 mil e será ainda denunciada ao Ministério do Trabalho. Ai resta a seguinte dúvida: E será isso verdade? Só eles e a corrupção quem sabe.
Ah!!! Existe também a tal cartilha, lançada pelo SRTE (Superintendência Regional do Trabalho e Emprego da Bahia), que é um informativo explicativo mostrando aos cordeiros a correta maneira de se utilizar os equipamentos de proteção individual. Essa cartilha aê faz parte do projeto “Ação carnaval”, que o órgão desenvolveu em parceria com o(MPT) Ministério Público do Trabalho e o Centro de Referência de Saúde do Trabalho de Salvador (CEREST), o Sindcorda e o Sindmúsicos
Todo mundo se comove com esses trabalhadores, até alguns artistas como o cantor Márcio Vitor, da Banda Psirico, que neste carnaval, desfilando no Campo Grande, no bloco Muquiranas, desceu do trio e cantou a música “Cole na Corda”, que inclusive dizem ser feita em homenagem a eles. “Vamos aplaudir esses trabalhadores, que merecem todo nosso respeito”, disse Vítor. E Continua. “Sei que eles sofrem, muitas vezes são agredidos e isso me deixa louco da vida”, desabafou. “Há mulheres grávidas e senhores de idade carregando a corda. Eles trabalham sob condições muito difíceis, na maioria das vezes por falta de opção. Vamos aplaudir esses nossos amigos”, concluiu.
Ai nos perguntamos: cadê a fiscalização gente? Mulheres grávidas, idosos, essa é um serviço para existir sempre? Beneficiar só parte dos muitos? Este é o estado mais amado do Brasil? Não, está na hora de tirarmos as máscaras desses blocos que só querem lucrar e lucrar, mostrar ser melhor, em cima de pessoas honestas, sofridas e humildes. Um dia é de chegar a hora de tirarmos a maquiagem do poder público também, que daqui dali, faz uma gracinha, uma campanhazinha, um projetozinho para dizer que se preocupa com estes coitados trabalhadores que trabalham debaixo do sol escaldante.
Acredito que está na hora de acabar com a falta de vergonha dos blocos, que usam a força dos braços destas pessoas para criar nos circuitos o que podemos chamar de Muro de Berlim. É isso... aqui, os cordeiros são obrigados a separar ricos e pobres, separar quem pode e quem não pode pagar, separar a pipoca daqueles que estão fardadinhos. Em conseqüência disso tudo, vemos é uma super exploração de mão de obra humana, alías, escrava. Escrava porque não livra ninguém.
Preto, branco, novo, velho, todos que estão desempregados e que necessitam ganhar um dinheiro, vão em busca de uma sorte que só existe na ilusão. A sorte é a da diária. Se é que podemos chamar de diária né? Porque, o que os blocos pagam é uma “merrequinha”, que de forma alguma não compensa tanto trabalho e esforço feitos por eles.
Ah!!! Mas tem ainda aqueles que defendem, a existência dos cordeiros no carnaval da Bahia, porque dizem que se os cordeiros acabar o folião do bloco acaba junto. Sim!!! Mas o que está em destaque aqui, são as condições de trabalhos destes cidadãos. O folião dos blocos podem acabar e estes seres humanos não podem acabar não? Claro que pode. E ainda de forma bem pior. Porque enquanto os foliões deixam a folia dos blocos por não terem segurança, estes pobres coitados podem nem estarem vivos. Mortos, por ter sofrido tantos abusos por muitos e muitos carnavais.
Diante de tantas opiniões, que fica ainda mais nítido que deverá existir um dia do fim da mão de obra cordeira, talvez esta fosse, uma das medidas de calar este governo, os blocos que vem imperando, inpondo cada vez mais o capitalismo no nosso carnaval de Salvador, dividindo raças, classes, crenças e povos.

Foto: Google
Saiba mais: www.axezeiro.com.br/noticia/matérias/3059,os -baiano.html
www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u131193.shtml

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