quarta-feira, 27 de maio de 2009

O muquifo e as sardinhas




por Aricelma Araújo


É de manhã e só se ver o corre- corre, estica-estica de braço, e os buzús param. Uma multidão se aproxima e começa a batalha por um lugarzinho, que diariamente é disputado por gordos e magros. O destino de muitos é o mesmo: o trabalho.
O motorista apressadinho, ameaça puxar o ônibus e daí o espreme-espreme na porta. Uns vão e outros ficam. Penso eu: “Jesus, eu dentro daquele quitute, morro sufocada”.
Bem nem o pensamento sai da cabeça e lá vem ela, devagarzinho, pirraçando, catando, desfilando, matracando, e com um tantão de sardinhas espremidas.
Sem querer chegar, chegando, ela chega e ai vamos nessa. Um passa, outro passa, um se ajeita, o outro desajeita, o livro cai, um pega, o outro pisa. A catraca trava e ninguém passa. A viagem atrasa e lá estamos mais um dia como sardinhas na topic Castelo Branco x Aeroporto.
E no corre-corre, o cobrador grita: Ô galera vai para o fundo. Aperta mais, que dá pra todo mundo. Um passageiro já irritado responde: Seu filho de uma puta , bote sua mãe aqui, pra você ver o gostoso. Aqui não cabe mais ninguém não”. E parando entre um ponto e outro, vou escutando os gritos e murmúrios.
O que ninguém sabe, é que toda aquela ganância do cobrador por passageiros, é porque aqueles filhos de uma mãe ganham por comissão, ou seja, cada cabecinha que estiver espremida ali dentro, lhe dá alguns centavinhos a mais no final do dia.
Desce a ladeira da Nestlé, e mais um dia os coração dos pobres passageiros na mão. Vira ou não vira? Eis a questão. Ninguém nunca sabe, porque eles seguram o freio e depois descem avionados. Como muita gente medrosa, me dá um friozinho na barriga como se eu estivesse dessaranjada.
Para no próximo ponto, alias fora do ponto. Mesmo como sardinha, uma estudante quer viajar também. O cobrador grita: Ô veio mais pra lá, agente ta no meio da pista. E o idiotizado do motorista, faz zig-zag, gozando da cara da garota: “Se eu atropelar ela, ela vai para o H já era”. O HGE já mudou de pronúncia. Penso eu, se essa moda pega!!!
Sobe a garota desconcertada e mais uma vez o grita. Naquela muvuca, muitos entram e poucos saem.
A cada metro completado, mas o caminho se torna longo. Pois o pára-pára nunca pára.
Lá vai mais um dia de stress dentro das carroças de Castelo Branco à Aeroporto. Ninguém nunca salta para eu dá uma descansadinha. O suor vem no rosto, a maquiagem derrete. “Ô meu deus, quanta pobreza. Tira-me daqui. Não agüento mais essa vida, me dê até um fusquinha veio”, é o que digo sempre à uma turma que vem empilhada junto comigo, nas subidas e descidas do percurso. Uma passageira murmura: “Êta que essas duas aí conversam. Não sei onde elas acham tanto assunto. Parece até nega do leite”. Uma colega, dona de uma língua nada grande reage: “É para passar o tempo e esquecer esse cheirinho de cecê que tá arruinando meu estômago. Alías cheirinho não. Cheirão. Porque o negócio aqui ta preto. O kkkkkkk começa. E alguns passageiros fazem caras e bocas. Sentem-se desconfiados.
Chega a garganta de São Marcos, e lá está as malditas filhinhas de carro. “Aiiii, não vou chegar hoje. Hoje é dia, de meu patrão me pagar. Lenhar comigo”.Todos riem. Sabe lá o que esse pegar, lenhar, significa. A jovem se esquiva e coloca seu rosto na janela. “Foi o calor que subiu”, grita um carinha ousado que todos os dias pega o ônibus alguns pontos depois de mim. Ousado e cara-de-pau, porque ela está cansada de tomar cotoveladas e mesmo assim insiste, em falar baboseiras no meu pé de ouvido. “Afffff dô conta disso não Cecel”, é o que diz Jojó, colega da faculdade. E eu respondo: “Ele é cego, não se enxerga”.
E lá vamos nós, mas um dia espremidas, descabeladas, amassadas, desconsideradas, desmaqueadas, porque naquele muquifo ninguém respeita ninguém.. “Cara você está roçando em mim”, é isso companheiro que você pode escutar se pegar essa maldita topic.
O sistema é bruto. E eu e mais uma coleguinha da sala, e muitos outros passageiros todos os dias 6h45 da manhã estamos na mira de sermos amassadinhos, salsichinhas, sardinhas destes topiqueiros de quinta categoria, como dizem por ai.

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