quarta-feira, 27 de maio de 2009

Negra trançada sabe quem é





por Priscila Rodrigues


O cabelo trançado das negras baianas é, sem dúvida, um elemento que construiu a identidade e a figura de resistência da negritude na Bahia. As negras baianas estão envolvidas em um contexto que as fazem se auto-identificar e pertencer a um grupo racial. Negras baianas. Outrora, somente envolvidas em questões ligadas ao culto do corpo e da sensualidade como forma de expressão, os cabelos se tornaram importantes para “a formação de identidades de afirmação positiva das diferenças raciais e a feminilidade” (Taniamara Elias Santos, 2008, pg. 3).
O cabelo trançado é diferente daquele cabelo que víamos ser massivamente difundido pela mídia até pouco tempo atrás de que cabelo bonito é cabelo liso. Chapinha, alisamento japonês, escova, escovas de chocolate, relaxamento, amaciamento, estão entre os inúmeros tratamentos aos quais muitas negras de cabelo crespo se submetem. Mas, existem também aquelas que andam na contramão de toda essa parafernália inventada pela indústria da moda e trançam os cabelos na procura por valores que ultrapassem esse domínio cultural do belo e bom.
Essas mulheres que antes eram esquecidas por tudo que lembrava moda e beleza começaram a lembrar-se que eram bonitas também com a explosão de intensas movimentações que valorizavam a negritude. Comportamento e cuidados com o corpo que definem um estilo negro de ser em roupas, cabelo e atitude eram importados e imitados pelos jovens em Salvador. “Uma imagem de contraste revela um discurso político, a partir dos anos 1970, relacionado aos reflexos do "black is beautiful", movimento cultural e comportamental norte-americano dos anos 1960.” (Jocélio Teles dos Santos, 1999, pg. 7) Essa influência ficou bastante clara com o surgimento do cabelo black-power, que sacudiu a “consciência racial” das jovens negras que passaram também a procurar as tranças e penteados afros em contrapartida aos alisamentos da vida.
“A imagem do cabelo natural passou a ser reverenciada como aquela que se contrapõe ao cabelo liso e que estaria em consonância com uma nova mentalidade do "ser negro".” (Jocélio Teles dos Santos, 1999, pg. 7). Ser negra hoje na Bahia é muito mais do que pertencer a um grupo de pessoas de determinada cor de pele. Ser negra baiana é também estar ligada a todo o turbilhão cultural pelo qual essa gente está destinada desde que pode se compreender e se orgulhar da carga genético-cultural que está no tom da pele. “A identidade negra é entendida, aqui, como uma construção social, histórica, cultural e plural. Implica a construção do olhar de um grupo étnico/racial ou de sujeitos que pertencem a um mesmo grupo étnico/raciais sobre si mesmos, a partir da relação com o outro.” (Nilma Lino Gomes, 2003, pg 5)
Para se tornar doutora em Antropologia Social pela USP, Nilma Lino Gomes, desenvolveu uma pesquisa etnográfica em salões étnicos de Belo Horizonte relacionando negro, corpo e estética. A pesquisa dela revelou que no processo de construção de identidade, o cabelo crespo era um forte ícone identitário que faria o corpo ser considerado como um suporte da identidade negra. “O papel desempenhado pela dupla: cabelo e cor da pele na construção da identidade negra foi o ponto de maior destaque durante a realização da pesquisa. A importância desses, sobretudo do cabelo, na maneira como o negro se vê e é visto pelo outro, até mesmo para aquele que consegue algum tipo de ascensão social, está presente nos diversos espaços e relações nos quais os negros se socializam e se educam: a família, as amizades, as relações afetivo-sexuais, o trabalho e a escola. Para esse sujeito, o cabelo carrega uma forte marca identitária e, em algumas situações, é visto como marca de inferioridade” (Gomes, 2002).
Mulheres que usam tranças têm a sua ancestralidade negra fortalecida e externada. Elas não sentem vergonha do que são e sabem valorizar suas raízes. São femininas, fortes e belas. A estética que os cabelos trançados proporcionam perpassa a construção da auto-estima da negra e chegam à politização dessas mulheres. Símbolos da luta por referências e identificação com sua própria história.
Foto: Google

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